sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Gênero, educação e contemporaneidade

Universidade Federal da Bahia – UFBA Pacto Nacional Pela Alfabetização na Idade Certa – PNAIC Gênero, educação e contemporaneidade Anete Simões, Hosana Gonçalves, Regiane Jesus Educação começa em casa. “Um bom pai” deverá formar seus filhos e filhas de maneira diferenciada de acordo com a sua “essência”, pois o menino se tornará um homem. E sendo homem manterá seu lar, governará o mundo do trabalho, as cidades, os países, os continente e até mesmo o mundo. E a mulher? A mulher é diferente, ela é educada para ser doce, meiga, plena de virtude, moral e civilidade. É a responsável pelas atividades domésticas, além de ter o privilégio de cuidar dos filhos e do marido. “E o bom pai” sabe que é preciso marcar essa diferença. É necessário colocar os filhos no caminho certo para que “eles se fabriquem”. Estas dicas são dadas pelo livro “Tesouro de Meninos” traduzidos para o Brasil em 1902. As relações entre homens e mulheres ainda nutrem caráter excludente. São assimiladas de forma bipolarizada, sendo incumbida à mulher a condição de inferior, que tem sido reproduzida pela maioria dos formadores de opinião e dos que ocupam as esferas de poder na sociedade. Ao introduzir as crianças no sistema de educação, a escola vem afirmar todos esses papéis de homem e mulher, construindo assim o retrato de nossa sociedade. Essa aprendizagem está implícita e explicita nas múltiplas instâncias e instituições sociais, através dos símbolos e normas nas redes de relação social, familiar e escolar, nas diferentes práticas e espaços. A construção de gênero se dá nos múltiplos espaços e instituições, mas a escola é um dos principais espaços para a criação e recriação desse ser. A rotina da escola assim com os seus conteúdos é ministrada dentro da sala de aula. Todo esse fazer pedagógico não é autônomo nem desinteressado, mas articulado a outras instâncias sociais. A escola é organizada para se apropriar das diferenças e promover a distinção e desigualdade. O currículo formal é masculino e machista que serve para reproduzir e reforçar o domínio masculino sobre as mulheres. Acredita-se que ser homem ou ser mulher é algo “biologicamente determinado", desde os atributos físicos, até os gostos, desejos, atitudes, interesses e comportamentos que distinguem o macho da fêmea em nossa sociedade. Esquece-se que essa crença é simplesmente decorrente da educação e do exercício social que recebemos. Faz-se necessário ressaltar que gênero não é o mesmo que sexo: gênero é a construção social do individuo e o torna homem e mulher, é o termo que traduz todo esse conjunto de expectativas sociais de desempenho que cada pessoa deve assumir e representar ao longo de toda a sua existência; sexo é a identidade biológica de cada pessoa. Entendo que o conceito de gênero é plural, pois os sujeitos são diferentes em uma linha do tempo e espaço. A verdade é que são mínimos os atributos biológicos que sugerem distinções exacerbadas entre os dois sexos, ao ponto dessas "diferenciações" estabelecerem o núcleo central de toda a embaraçada rede de relações entre o homem e a mulher, que estão na base da nossa organização social. Assim, muito mais do que a natureza, é a sociedade que define quais devem ser os papéis e atitudes mais apropriados e compatíveis com cada sexo biológico. Cada pessoa adota o identificador cultural explicitado para o seu sexo biológico muito mais por "pressão de grupo" do que por "herança genética". Seja de maneira sutil ou ostensiva, cada pessoa é persuadida desde muito cedo a agir conforme as regras impostas para homem ou mulher. Como escreveu Simone de Beauvoir na sua obra “O Segundo Sexo”, “ninguém nasce mulher; torna-se mulher”. Por extensão, pode-se afirmar que, ninguém nasce homem ou mulher: aprende-se o conjunto de comportamentos e papéis sociais que nos são atribuídos em razão de alguém ter nascido macho ou fêmea, numa determinada sociedade e numa determinada época. A sociedade de um modo geral tem uma visão dicotômica fazendo distinções entre homem e mulher e espera-se também um desempenho diferente entre um e outro, o que é bom e bonito para uma mulher, para um homem não pega bem e vise versa, o que leva a repreender uma menina por um determinado ato, enquanto o menino pode ser elogiado pela mesma ação. O trabalho é outro campo de distinção entre homens e mulheres. No mundo do trabalho a mulher tem função menos expressiva e possui uma remuneração menor que do homem mesmo que realize a mesma atividade. Esta diferença não encontra explicação nas ocorrências econômicas, pois suas raízes estão plantadas em matrizes diversificadas, um deles é o interesse do homem em manter a mulher numa relação hierárquica inferior. Mas isso não significa que o mundo só precisa de homem, de jeito algum. Os dois gêneros são importantes, mesmo porque “por atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Nosso primeiro ímpeto ao refletir sobre gênero é nos dominar a modos de pensamento que são frutos da criação e vivencia no regime de sociedade patriarcal. Indiretamente todas as nossas estruturas de análise estão sutilmente contaminadas por traços e fragmentos dispersos dessa visão androcêntrica do mundo, produzida pela dominação masculina. Mas sempre há uma esperança, pois sabemos que a construção de gênero é um processo “social e histórico”. Isso significa que o desafio de romper o esquema binário, em que o masculino e o feminino se constroem na oposição um ao outro, está em transformação, logo nos dá abertura a imprimir uma visão epistêmica rumo a mudança dessa realidade, buscando assim uma sociedade mais igualitária para homens e mulheres, pois somos diferentes uns dos outros mas não inferior. Homens e mulheres são cidadãos/cidadãs com direitos e deveres, com pontos fracos e fortes, com defeitos e qualidades. A proposta de desconstrução é, pois, a de desmontar a lógica das oposições binárias do pensamento tradicional, é imprescindível perceber que o oposto da igualdade é a desigualdade, contrário a diferença. Precisamos, pois construir a lógica da diferença como artifício positivo, regulado na identidade sem desigualdade, indicando que um está presente no outro de modo congruente. REFERENCIA: BARBIERI, Teresita. Sobre a categoria de gênero: uma introdução teórico-metodológia. SOS Corpo, Recife: 1992. BRUSCHINI, Maria Cristina Aranha. Mulher, casa e trabalho: o cotidiano nas camadas médias paulistas. Vértice, São Paulo: 1990. NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do. O fenômeno da exclusão social no Brasil. INED n.3, 1996. PARAISO, Marlucy Alves. Gênero na formação docente: campo de silencio no currículo. SILVA, Luiz Heron e AZEVEDO, José Clovis (org.) Re-estrutução curricular. Teorias e práticas no cotidiano escolar. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.